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terça-feira, 15 de abril de 2014

Crítica: "Grand Budapest Hotel" (2014)

Outra visão criativa e adorável de Wes Anderson

Grand Budapest Hotel centra-se essencialmente nas aventuras inacreditáveis de Gustave H., um concierge muito famoso do fabuloso Grande Budapest Hotel localizado na República fícticia de Zubrowka, e o seu melhor amigo e fiel companheiro, Zero Moustafa

O rigor técnico, como a utilização excessiva da simetria, o vestuário, as cores alegres e os cenários magníficos, transportam-nos imediatamente para o mundo de Wes Anderson. É um deleite e um privilégio poder assistir a algo tão bem trabalhado. O enredo simples e frenético aliado à banda sonora genial de Alexandre Desplat, fazem o espectador suplicar por mais. Existe tanta coisa para explorar e é uma pena ter apenas 100 minutos de duração.

A ousadia de Ralph Fiennes - que interpreta Gustave - combina perfeitamente com a ingenuidade de Tony Revolori (Moustafa) e resulta em peripécias hilariantes. O vasto elenco transmite uma alegria contagiante e está repleto de nomes sonantes: Tilda Swinton, Edward Norton, Adrien Brody, Willem Dafoe, Harvey Keitel, Jeff Goldblum e ainda o incontornável Bill Murray são apenas algumas figuras que podemos encontrar nesta longa-metragem. Uma característica já habitual nos filmes de Anderson.

Grand Budapest Hotel é um filme especial repleto de cameos brilhantes e diálogos rápidos como uma bala.  Este segundo factor torna o filme, por vezes, difícil de acompanhar porque o ritmo demasiado acelerado acaba por nos fazer perder detalhes e pontos-chave do enredo. Contudo, os personagens memoráveis e a cinematografia brilhante de Wes Anderson convidam-nos a entrar neste mundo mágico onde a imaginação não tem limites. Uma obra mais que recomendada para os fãs deste realizador.

Para ver e rever.

domingo, 13 de abril de 2014

Crítica: "Capitão América - O Soldado de Inverno (2014)"

A estrutura coesa e lógica para explicar a ordem dos acontecimentos tornam a mais recente adaptação das aventuras de Steve Rogers, para o grande ecrã, no projecto mais coeso da Marvel até à data.

Após os eventos dos Vingadores, a S.H.I.E.LD começou a tornar-se numa enorme rede de segurança e a tentar anteceder os próximos ataques terroristas no mundo. Um dos agentes mais importantes deste organismo é Steve Rogers - também conhecido como Capitão América - que tenta conciliar o tempo travar ameaças mundiais e a tentar perceber tudo aquilo que perdeu, maioritariamente a nível cultural, desde que foi congelado. Existe um ambiente de insegurança muito patente na S.H.I.E.L.D sobre decisões estratégicas para proteger a população. Esta tensão política culmina numa conspiração enorme quando surge um soldado com um braço biónico - Soldado de Inverno - que tem a tarefa de eliminar certos alvos estratégicos e testa o verdadeiro propósito desta organização.

Esqueçam, por momentos, que este é um filme sobre super-heróis. Os irmãos Russo, os dois realizadores do filme, conseguiram tornar o Capitão América num dos heróis mais interessantes da Marvel através de guião interessante que explora o passado do personagem e permite introduzir uma fornada de personagens novos no universo de Stan Lee.

Alternando acção frenética (com pouca utilização de CGI e um foco maior na luta corpo a corpo) com uma abordagem de eventos reais - como a queda do império Nazi - o filme consegue ainda ter tempo para explicar os motivos de cada um dos personagens e construir uma teia de sequências que menciona diversas identidades conhecidas (Banner, Doctor Strange, Tony Stark).

As actuações são do que se podia esperar num filme deste género. Não existe muito pano para mangas mas Chris Evans prova mais uma vez que tem o carisma necessário para agarrar o papel. A química com Scarlett Johansson, está melhor que nunca e nota-se um ambiente descontraído que favorece o desenvolvimento do filme. Os novos personagens são óptimos e integram-se perfeitamente no argumento. Com propósitos distintos, cada um dos novos nomes, tem hipóteses de demonstrar porquê é que foram escolhidos. O vilão é um autêntico "badass" com um look futurista e apresenta um desafio real à força sobre-humana de Steve Rogers. É o inimigo mais interessante nos filmes da Marvel até agora e que permite aprofundar uma série de eventos paralelos. Arrisco-me a afirmar que é melhor que Loki e é claramente o que faltava num filme deste calibre.

Esta longa-metragem não deve ser encarada como apenas mais um filme de super-heróis. Trata-se de uma sequela que supera em todos os aspectos o antecessor e insere-se no ramo de thriller político e de espionagem. Por esta razão,  Capitão América - O Soldado de Inverno é um filme mais que recomendado não só para os fãs de super-heróis como para todos os que apreciam uma história de espiões digna dos anos 80.

Crítica: "Wall Street" (1987)

Wall Street é um retrato engenhoso que tenta explicar como funciona a bolsa de valores e o impacto das alterações monetárias no mundo.

Oliver Stone apresenta-nos a história de Bud Fox, um jovem corretor de bolsa bastante ambicioso, que trabalha numa firma em Nova Iorque. Cansado de viver à custa dos outros e sedento de poder, Budd está sempre a procura de uma oportunidade nova para subir na vida. Quando este conhece Gordon Gekko - um corretor de crédito implacável a tomar decisões arriscadas - percebe que terá de esquecer as regras de bom senso e tentar apanhar todo o tipo de informações ilegais que conseguir.

O realizador capturou de forma quase perfeita o conflito de valores presente na deliberação dos negócios e as implicações legais e ilegais da bolsa. O filme demonstra as consequências de determinadas fusões empresariais e a forma como isso condiciona diversos agentes - as empresas, os contribuintes, os bancos e a quantidade de comissões que cada corretor da bolsa recebe.

A vibe excessiva de 1980, a presença de Martin e Charlie Sheen - como pai e filho - que resulta em diversos problemas morais, a actuação fria, imperativa e manipuladora de Michael Douglas, a incorporação de computadores com o Sistema Operativo DOS na firma de Bud e outras inovações informáticas da época (um dos pequenos detalhes mais interessantes) e uma panóplia de técnicas financeiras, tornam Wall Street numa longa-metragem obrigatória para perceber como funcionam os bastidores do mercado mundial.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Crítica: "The Game" (1997)

Dois anos após o lançamento de Se7en, David Fincher volta a pregar-nos às cadeiras com o mirabolante The Game (O Jogo). Tal como é costume neste realizador, somos apresentados a um mundo que desafia a nossa sanidade mental e nos deixa sem fôlego à medida que a realidade vai ficando cada vez mais distorcida. 

Nicholas Van Orton, é um milionário atormentado pela solidão. Quando completa 48 anos, o seu irmão Conrad ,(Sean Penn) decide trazer um pouco de luxúria e animação, oferecendo um cartão de uma empresa - Consumer Recreation Services - que organiza um jogo obscuro criado à medida dos participantes e que não tem qualquer tipo de regras. Céptico e sem saber onde se estava a meter, Nicholas decide entrar neste jogo doentio e vê a sua vida pacata, a ser invadida com fenómenos estranhos e um pouco macabros. Sem conseguir distinguir o que é real do que é ficção, Nicholas vê-se preso num esquema que controla tudo e todos.
 
Fincher capta a nossa atenção logo nos primeiros dez minutos do filme ao acelerar a história para o ponto principal. Esta estratégia impede que o espectador desvie o olhar do ecrã durante uns breves segundos porque pode perder informação crucial para entender o enredo. 
Tal como Nicholas, nós também somos engolidos naquele misto de realidade e ficção, e a nossa mente começa-nos a pregar algumas partidas. Será que aquela cena foi real? Ou foi só um sonho? 
Sem conseguirmos distinguir a validade e a lógica das coisas, damos por nós presos no Jogo e temos de ir juntando as peças para perceber como é que se pode invalidar este esquema tal como o personagem principal do filme.

Este sentimento de incerteza que, aos poucos, vai invadindo a mente do espectador, é agravado e explorado pela actuação surpreendente de Michael Douglas. Calmo por natureza e um pouco fora do seu domínio, Douglas surpreende no papel do milionário e alcança o papel de uma carreira. A sanidade mental do actor é fortemente posta à prova e isso permite alcançar várias camadas psicológicas do personagem: ironia, desespero, medo e a violência. À medida que o Jogo avança, Nicholas sofre uma grande transformação.
Tal como já é habitual, David Fincher opta por uma realização brilhante que foca o plano no personagem principal e dá ênfase a pequenos pormenores que existem no background, proporcionando a ideia de desordem e que um determinado objecto vai ter de ser utilizado mais a frente no Jogo. É uma estratégia simples mas que funciona na perfeição porque, após uma segunda visualização, percebemos detalhes que nos podiam ter ajudado a resolver o quebra-cabeças.
A música de Howard Shore (conhecido pela fantástica banda sonora da trilogia Senhor dos Anéis e vencedor de três Óscares) é subtil, confusa e só serve para nos desorientar ainda mais a cabeça. Sempre inquietante, acompanha o desenrolar dos acontecimentos e ajuda a instaurar o pânico nos momentos mais importantes.

Esta é uma longa-metragem que passa ao lado de muita gente - por ser um dos trabalhos iniciais do realizador - mas que merece a vossa atenção e acaba por ser surpreendente. É um thriller mais que recomendado.
Posto isto, desafio-vos a entrarem na mente preversa de David Fincher e a experimentarem este cenário paranóico...