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domingo, 19 de janeiro de 2014

Crítica: "Fruitvale Station" (2013)

Fruitvale Station começa de forma polémica, com a exposição de um vídeo amador gravado numa estação de comboios, onde é demonstrado a força bruta e excessiva de alguns polícias numa situação aparentemente controlada. No meio dos gritos abafados, a imagem vai desvanecendo e existe o chamado "cut to black".
 
O realizador do filme consegue captar a atenção do espectador logo nos primeiros segundos ao mostrar a real footage e depois deixa-nos a pensar no que aconteceu, enquanto a imagem vai desaparecendo, agarrando-nos de imediato à longa-metragem. A verdade é que só saberemos o que realmente aconteceu naquela estação de comboio no clímax do filme e o realizador opta por contar um pouco da vida de Óscar Grant. Confesso que já tinha lido qualquer coisa na internet sobre os acontecimentos na estação de Fruitvale mas nem isso me estragou a experiência porque a acção não se prende à premissa principal e acaba por ser bastante interessante durante a primeira meia hora, assumindo a forma de um caso de estudo. Desde o início percebemos que algo vai correr mal, só não sabemos o quê. Em certos momentos, a música fica tensa e o ambiente torna-se inseguro. Esta exposição dura breves segundos e serve para acabar com a ilusão de que está tudo bem.
  
Óscar Grant, tem 22 anos e vive na Califórnia. No dia 31 de Dezembro de 2008, Óscar acorda e e percebe que tem de mudar a sua vida. Tem de deixar os actos irresponsáveis e agarrar-se aquilo que realmente importa - a família. É véspera de Ano Novo e este já tem a sua resolução feita: Tentar ser um pai presente e um bom filho. Somos então imersos na vida de Óscar e a forma como este tenta recuperar o que fez mal. Mas o mais interessante é o facto do realizador Ryan Coogler, um novato nestas andanças, fazer o retrato de Óscar de uma forma imperfeita e humilde. Nós sabemos que ele teve problemas graves, que nem sempre tomou as decisões mais correctas mas sentimos compaixão e o nervosismo miudinho de Óscar. No fundo, queremos que ele comece a ser responsável e acabamos por torcer para que isso aconteça. Este sentimento agrava-se quando vemos Óscar com a filha devido à relação de simplicidade e ternura entre os dois.
 
Mas o verdadeiro trunfo do filme reside na actuação de Michael B.Jordan que parece criar uma balança emocional perfeita. É como se o actor tivesse nascido para fazer este filme. Michael nunca exagera no retrato de Óscar, assume o papel de pai de uma forma óptima e demonstra o filho problemático que está a tentar pegar nos cacos da vida. Para quem vê a série The Wire, pode não esperar muito deste actor mas é uma grande surpresa. Com certeza que irá ter mais papéis após esta performance. Nos papéis secundários destaco a presença de Octavia Spencer, uma veterana em Hollywood, e interpreta a mãe de Óscar. Como realizador, apostaria quase sempre em Octavia porque faz sempre papéis simples mas acrescenta drama e sentimento. Quem não se recorda de Minny Jackson do filme "As Serviçais"?

Frutivale Station apenas peca por não poder sair do estatuto de história verídica e explorar temas mais profundos sobre a discriminação racial. Tem de seguir a estrutura dos acontecimentos e ainda acrescenta um pouco da vida de Óscar para seguir um ritmo balanceado, por isso, acaba por ser uma boa aposta para a primeira longa-metragem de Ryan Coogler.
 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Crítica: "The Wolf of Wall Street" (2014)

Bebam café. Repitam o processo mais três vezes. Agora metam o dobro do açúcar e experimentem ouvir a música mais épica que conhecem (Aqui entre nós, o protagonista consome muitas drogas mas o blog não apoia esse tipo de comportamento. Contudo, o efeito é mesmo esse. Altas doses de cocaína e heroína). Repitam o processo mais duas vezes até cair para o lado. "Wolf of Wall Street" é isto e muito mais. O filme não pára. Não tem pausas. Um único momento morto. Está em constante movimento. Até os figurantes dão o litro.... É impressionante.

Muitas das cenas são over the top, passam o limite do razoável mas nunca perdem o tino do enredo. E surpreendementemente, nós queremos mais. Queremos mais excessos e mais rebeldia do Jordan Belfort. Cada discurso equivale a uma dose de adrenalina. E só temos de agradecer a Leonardo DiCaprio por ter feito um trabalho tão bom. Até fico a pensar como é que ele aguentava este ritmo diariamente durante as gravações do filme.
Mas falemos do filme. Jordan Belfort é um corrector da bolsa que se perde no mundo dos negócios devido à vida extravagante que leva. Drogas, sexo, esbanjar dinheiro sem dar por isso - o típico Sonho Americano. Num minuto está numa reunião importante e noutro está a apanhar uma moca com valliums. Sinceramente nem sei como é que este tipo está vivo. (Sim, isto é baseado numa história verídica).
Sem querer contar mais sobre o enredo, porque o filme é um ciclo, Jordan cria um império à custa dos outros. E eventualmente as coisas começam a tornar-se demasiado pomposas, sempre com mais luxúria e problemas à mistura. Jordan torna-se no Lobo de Wall Street, uma criatura que não olha a meios para atingir os fins mas que, surpreendemente, é adorado por todos que trabalham na sua firma. Desculpem mas aquilo não é uma firma... É um autêntico circo sem regras que enriquece através da venda de acções.
Não se enganem. DiCaprio não carrega o filme às costas. Jonah Hill, Matthew MaConaughey e Margot Robbie juntam-se à festa e criam um ambiente de folia digno de uma bad trip. É capaz de ser o filme mais divertido da carreira destes nomes. Nem parece que o filme foi realizado por um Senhor com 71 anos. É mesmo díficil de acreditar porque a acção parece ser retirada de um sonho depravado de um adolescente. Os diálogos estão geniais e não têm medo de usar palavras feias, a música actua como uma autêntica bebida energética e impede que o espectador se atreva a desviar o olhar do ecrã. Para além disto, o personagem de Dicaprio quebra constantemente a fourth wall (a barreira entre o personagem e o espectador, um pouco como Deadpool faz nas B.D's) e proporciona-nos momentos inteligentes, onde o próprio questiona a sanidade mental de Jordan.

"Wolf of Wall Street" é um filme cru e hilariante. Os diálogos abusam do uso da palavra fuck, os planos são atrevidos e sensuais, o filme tá carregado de nudez e cenas controversas mas é a a viagem mais alucinante de DiCaprio desde "Catch me if you Can" que eleva a acção. Podemos comparar facilmente esta película ao intemporal "Goodfellas" do mesmo realizador e isso é o maior elogio que podemos dar este festival de luxo.

Este filme merece um brinde e um espaço na vossa estante.