Fruitvale Station começa de forma polémica, com a
exposição de um vídeo amador gravado numa estação de comboios, onde é
demonstrado a força bruta e excessiva de alguns polícias numa situação
aparentemente controlada. No meio dos gritos abafados, a imagem vai
desvanecendo e existe o chamado "cut to black".
O realizador do filme consegue captar a atenção do espectador logo nos primeiros segundos ao mostrar a real footage e
depois deixa-nos a pensar no que aconteceu, enquanto a imagem vai
desaparecendo, agarrando-nos de imediato à longa-metragem. A verdade é
que só saberemos o que realmente aconteceu naquela estação de comboio no
clímax do filme e o realizador opta por contar um pouco da vida de Óscar Grant. Confesso que já tinha lido qualquer coisa na internet sobre os acontecimentos na estação de Fruitvale mas
nem isso me estragou a experiência porque a acção não se prende à
premissa principal e acaba por ser bastante interessante durante a
primeira meia hora, assumindo a forma de um caso de estudo. Desde o
início percebemos que algo vai correr mal, só não sabemos o quê. Em
certos momentos, a música fica tensa e o ambiente torna-se inseguro.
Esta exposição dura breves segundos e serve para acabar com a ilusão de
que está tudo bem.
Óscar Grant, tem 22 anos e vive na Califórnia. No dia 31 de Dezembro de 2008, Óscar
acorda e e percebe que tem de mudar a sua vida. Tem de deixar os actos
irresponsáveis e agarrar-se aquilo que realmente importa - a família. É
véspera de Ano Novo e este já tem a sua resolução feita: Tentar ser um
pai presente e um bom filho. Somos então imersos na vida de Óscar e a forma como este tenta recuperar o que fez mal. Mas o mais interessante é o facto do realizador Ryan Coogler, um novato nestas andanças, fazer o retrato de Óscar
de uma forma imperfeita e humilde. Nós sabemos que ele teve problemas
graves, que nem sempre tomou as decisões mais correctas mas sentimos
compaixão e o nervosismo miudinho de Óscar. No fundo, queremos
que ele comece a ser responsável e acabamos por torcer para que isso
aconteça. Este sentimento agrava-se quando vemos Óscar com a filha devido à relação de simplicidade e ternura entre os dois.
Mas o verdadeiro trunfo do filme reside na actuação de Michael B.Jordan que parece criar uma balança emocional perfeita. É como se o actor tivesse nascido para fazer este filme. Michael nunca exagera no retrato de Óscar,
assume o papel de pai de uma forma óptima e demonstra o filho
problemático que está a tentar pegar nos cacos da vida. Para quem vê a
série The Wire, pode não esperar muito deste actor mas é uma
grande surpresa. Com certeza que irá ter mais papéis após esta
performance. Nos papéis secundários destaco a presença de Octavia Spencer, uma veterana em Hollywood, e interpreta a mãe de Óscar. Como realizador, apostaria quase sempre em Octavia porque faz sempre papéis simples mas acrescenta drama e sentimento. Quem não se recorda de Minny Jackson do filme "As Serviçais"?
Frutivale Station apenas peca por não poder sair do
estatuto de história verídica e explorar temas mais profundos sobre a
discriminação racial. Tem de seguir a estrutura dos acontecimentos e
ainda acrescenta um pouco da vida de Óscar para seguir um ritmo
balanceado, por isso, acaba por ser uma boa aposta para a primeira
longa-metragem de Ryan Coogler.
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